Rádio Germinal

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

O PROBLEMA DA IDENTIFICAÇÃO DA POSTURA INTELECTUAL

O PROBLEMA DA IDENTIFICAÇÃO DA POSTURA INTELECTUAL

Nildo Viana

Os intelectuais são os indivíduos que compõem a classe social denominada intelectualidade. No entanto, todas as classes sociais possuem subdivisões, bem como distintas manifestações políticas, culturais. A classe intelectual possui suas frações de classes (artistas, cientistas, técnicos, etc.) e isso gera diferença de valores no seu interior, o que é mantido em outras subdivisões no seu interior (os cientistas possuem elementos em comum enquanto fração de classe, mas também possuem divisões internas, a começar entre os cientistas sociais e os cientistas naturais).

Uma das divisões mais importantes no interior da intelectualidade é a postura intelectual de cada indivíduo. O que é “postura intelectual”? Como definimos em outro lugar, elas “são as posturas dos intelectuais, indivíduos pertencentes à classe intelectual, que expressa sua posição social no interior desta classe e seu posicionamento, diante dela e da sociedade como um todo, incluindo suas concepções políticas” (VIANA, 2015a, p. 12). Ou seja, a postura intelectual está ligada a posição do intelectual na hierarquia da classe e das esferas sociais (VIANA, 2015b). Ela se caracteriza por sua posição social e seu posicionamento (diante da classe, da sua esfera específica e da sociedade e suas divisões de classes e política).

Posição social e posicionamento tendem a ser semelhantes, embora, em alguns casos, possa haver certa discrepância, que só a pesquisa de casos concretos pode delimitar e explicar. Essa hierarquia pode ser dividida em segmentos, entre os quais os hegemônicos e dissidentes, que são aqueles que competem pelos espólios da sua esfera científica e da classe intelectual, tal como o reconhecimento dos seus próprios pares e dos meios intelectualizados da sociedade. Estes são os integrados dentro da classe intelectual e das esferas sociais, sendo que o que os distingue é a competição pelo lugar principal, com os dissidentes querendo se tornar hegemônicos. Os hegemônicos estão no topo da hierarquia intelectual e/ou esférica[1], e conseguem manter a hegemonia no âmbito da classe intelectual e sua esfera social particular. Isso significa que uma postura intelectual remete não apenas para sua posição na hierarquia da classe intelectual e esfera científica, mas também seu posicionamento. Os hegemônicos geralmente se posicionam a partir das concepções hegemônicas na classe intelectual e esferas sociais tanto no que se refere a sua autoimagem quanto em seu posicionamento político. Os dissidentes são aqueles que estão em segundo plano e querem passar para o primeiro plano. Trata-se de uma oposição que revela, no fundo, uma competição.

Essas duas posturas, as mais comuns e predominantes, convive com outras, que já se separam do eixo central da classe intelectual e das esferas sociais. Esse é o caso dos intelectuais venais, cujo valor fundamental não é o mesmo dos setores mais integrados na classe e esfera, e sim o dinheiro. Por isso são “venais”. Existem também os intelectuais ambíguos, que ficam entre a reprodução da mentalidade da classe intelectual e da esfera que pertencem e outras instituições (igrejas, partidos, etc.). Um outro caso é o dos intelectuais amadores, que são aqueles que são marginalizados e não conseguem se inserir adequadamente na classe intelectual e em suas esferas e por isso não se integram no modus operandi seja da classe ou esfera que se aproxima e nem possuem condições de disputar seus espólios. Por último, temos outra postura intelectual, que é a dos intelectuais engajados, que se afastam da mentalidade e competição pelos espólios da classe intelectual e de sua esfera particular, geralmente realizando a sua crítica e apontando a transformação social radical e total como objetivo ao invés dos espólios da classe e esferas sociais.

Politicamente, os hegemônicos e dissidentes tendem a ser conservadores ou progressistas moderados, os venais são geralmente conservadores, os amadores são mais afastados da política institucional e mais heterogêneos em suas concepções políticas, os ambíguos tendem a ser predominantemente progressistas (com um setor conservador, ligados a instituições conservadoras) e os engajados são revolucionários. Obviamente, que indivíduos concretos podem romper com essa tendência, mas é algo difícil, especialmente no caso dos hegemônicos.

Essa hierarquia na classe intelectual e no interior de suas subdivisões (esferas sociais) acaba criando um forte problema para o pesquisador que quer identificar qual segmento que um intelectual pertence, ou seja, qual sua postura intelectual. No caso dos amadores, por sua posição, é mais fácil. Existem casos, no entanto, que é mais difícil, como, por exemplo, no caso de indivíduos que historicamente mudaram sua postura intelectual (dissidentes que se tornaram hegemônicos e vice-versa, hegemônicos que se tornaram engajados ou vice-versa, ambíguos que se tornaram dissidentes ou vice-versa, além dos casos nos quais ocorreu mais de uma mudança na postura intelectual). Além disso, muitas vezes intelectuais ambíguos podem ser confundidos com intelectuais engajados, dissidentes com hegemônicos, venais com dissidentes e ambíguos, etc.

Machado de Assis era um intelectual hegemônico? Lima Barreto era um intelectual engajado? Paulo Coelho é intelectual venal? Enes da Cunha Teles é um intelectual amador? Jorge Amado era um intelectual ambíguo? Essas questões remetem a um problema metodológico que é o de como identificar a postura intelectual de um indivíduo pertencente ou aspirante a pertencer à classe intelectual. Em certos casos, isso é relativamente mais fácil, que é quando o intelectual em questão deixa explícitos sua posição e posicionamento. No entanto, mesmo nestes casos pode haver controvérsias, pois a autodefinição não é suficiente. Como Marx afirmou, não se define uma época de transformação social pelo que ela diz de si mesma assim como não se analisa um indivíduo por sua autoimagem.

A autodefinição é a parte do discurso no qual um intelectual diz o que é (a qual corrente intelectual adere, qual concepção política defende, qual seu posicionamento diante das questões políticas e sociais, etc.). O pesquisador não pode se contentar com a autoimagem ou autodefinição dos indivíduos e, no caso que abordamos aqui, dos intelectuais. A autodeclaração do indivíduo é um dos elementos que devem ser analisados para identificar a sua postura intelectual. No entanto, esta autodeclaração deve ser vista criticamente e acompanhada por outras fontes de informação. O material informativo necessário para se identificar qual é a postura intelectual de um indivíduo é, além da autodeclaração (o discurso sobre si mesmo e sua posição e posicionamento), a prática efetiva e sua prática discursiva. Desta forma, é necessário: a) analisar sua autodefinição: como ele definia sua própria posição diante da sociedade e dos meios intelectuais (academia, esfera social e/ou intelectualidade), b) analisar sua prática discursiva: o conjunto do seu discurso no qual explicita sua real posição diante da sociedade, política, intelectualidade, etc. e c) analisar sua prática efetiva: como ele, efetivamente, se relacionava com a academia, esfera social e/ou intelectualidade e com a política e a sociedade.

Assim, cabe ao pesquisador acessar esse material informativo e realizar sua análise. A autodeclaração, após ser acessada, pode dizer o que corresponde à realidade ou não. Por exemplo, um intelectual pode se autodeclarar social-democrata, progressista, liberal, conservador, comunista, etc. Essa é sua autodefinição política. Da mesma forma, esse mesmo intelectual pode defender a tese da “autonomia da ciência” e da neutralidade e que os intelectuais devem representar o “universal”. Essa seria sua autodeclaração no que diz respeito ao seu posicionamento diante da ciência e da intelectualidade. Mas também, se for um sociólogo, poderia se autodefinir como um “sociólogo crítico” ou “neutro” ou, se fosse um geógrafo, se autodefinir como “marxista”, “humanista” ou “positivista”. Essa é sua autodefinição intelectual. Ao pesquisar um intelectual é preciso buscar sua autodefinição. Uma vez acessada a sua autodefinição, torna-se necessário pesquisar se ela é verdadeira ou falsa. Em muitos casos é verdadeiro, bem como em muitos outros é falsa.

Como verificar se a autodefinição é verdadeira ou falsa? É por isso que é necessário analisar sua prática discursiva e sua prática efetiva. Esses dois itens permite concluir se a autodefinição é verdadeira ou falsa. Por exemplo, se um intelectual se diz “crítico do poder”, um contestador e adepto da transformação social, é possível verificar se isso é verdadeiro ou falso analisando sua prática discursiva e sua prática efetiva. A prática discursiva é o que ele efetivamente realiza em seus discursos. Um indivíduo pode fazer um discurso democrático de forma autocrática. A frase “você deve se submeter ao regime democrático” é um bom exemplo para mostrar que a afirmação discursiva aponta para pensar que o seu autor é um democrata, mas, ao mesmo tempo, a forma como ele efetiva o discurso é autocrático. É por isso que a afirmação deve ser analisada e necessita da confirmação: “A afirmação é uma declaração afirmada conscientemente no discurso e confirmação é a efetivação disso no discurso, a prática discursiva. A afirmação discursiva é o que o discurso diz e a confirmação é o que efetivamente faz. Pode haver coerência ou contradição entre afirmação e confirmação” (VIANA, 2015c, p. 55). Assim, a afirmação discursiva pode ser coerente ou não com a efetividade discursiva e por isso torna-se necessária a sua confirmação. A análise da prática discursiva é fundamental para descobrir a efetividade discursiva, a coerência ou incoerência entre o dito e o efetivado.

A prática discursiva vai além da autodeclaração. Um intelectual que afirma ser progressista e escreve artigos defendendo ideias conservadoras e outro que se diz anarquista, mas escreve textos apoiando candidatos para eleições, mostram a incoerência entre o dito e o efetivado e isso significa que a prática discursiva refuta a autodeclaração. Cabe ao pesquisador, portanto, demonstrar que sua autodeclaração é falsa e isso é comprovado por sua prática discursiva e que, portanto, trata-se de um pseudoprogressista e um pseudoanarquista, respectivamente.

Sem dúvida, existem muitos casos opostos. Um intelectual pode se autodeclarar marxista e demonstrar isso em sua prática discursiva. Isso ocorre quando ele, efetivamente, utiliza os conceitos, teorias e concepções marxistas e na perspectiva do proletariado. Cabe ao pesquisador analisar o uso dos conceitos, teoria, etc. e assim ter a confirmação de que a autodeclaração corresponde à prática discursiva, sendo, portanto, verdadeira.

Existem alguns casos em que não existe autodeclaração ou ela não é clara e objetiva. Um cientista pode simplesmente não declarar qual é sua concepção política e sua concepção de ciência. Nesse caso, a prática discursiva se torna um material informativo basilar. Em outros casos, o cientista pode ser confuso, contraditório, volúvel (quando em uma oportunidade afirma ser algo e em outra já se autodeclara de outra forma) em suas declarações sobre si mesmo. Nesse caso, o pesquisador deve observar se a volubilidade é devido ao decorrer do tempo, significando mudanças de postura (um hegemônico que com o passar do tempo se torna dissidente ou um engajado que se torna ambíguo, por exemplo), confusão ou ambivalência, formação intelectual deficiente, indecisão por certas determinações, tal como a pressão social (alguns intelectuais podem, por covardia ou situações determinadas, dizer que é o que não é, ou, então, se mostrar definido e sem ambivalência apesar de ser indefinido e ambivalente).

No entanto, é preciso ir além da análise da autodeclaração e da prática discursiva. A identificação da postura intelectual de um indivíduo se concretiza com sua prática efetiva, ou seja, o que efetivamente ele faz e se isso é coerente ou não. Por exemplo, Foucault se dizia um crítico do poder (autodeclaração) e escrevia textos de crítica ao poder (efetividade discursiva)[2], mas, no entanto, passou sua vida atrelado ao poder (MANDOSIO, 2011). Assim, a autodeclaração e a prática discursiva são importantes para verificar a verdadeira concepção de um intelectual e por isso a prática efetiva se torna um complemento necessário. Obviamente que este exemplo é apenas uma possibilidade, pois existem diversos casos de coerência entre autodeclaração, prática discursiva e prática efetiva. No caso de incoerência entre autodeclaração e prática discursiva, a prática efetiva pode oferecer a resposta final ao descobrir se, nas relações sociais concretas, o intelectual em questão confirma a autodeclaração ou a prática discursiva, embora o mais comum seja a coerência com a última.

A prática efetiva é aquela na qual o intelectual exerce sua profissão e atividades intelectuais, o que permite observar se existe coerência entre sua autodeclaração e prática discursiva com relação à sua profissão, e aquela em que desempenha práticas políticas, se posiciona em relação às questões sociais, etc., o que pode ser efetivado tanto na sua própria vida profissional e acadêmica quanto em outros lugares (imprensa, partidos, grupos políticos, meios de comunicação em geral, comunidade, associações diversas, etc.). No caso citado de Foucault, a sua prática efetiva mostra o seu atrelamento e relação com o aparato estatal e outras instituições, bem como sua volubilidade em seguir os modismos acadêmicos (MANDOSIO, 2011). Assim, a sua autodeclaração de posição política é incoerente com sua prática efetiva. Da mesma forma, alguns intelectuais podem criticar a academia, a ciência, a sua esfera social, mas se encontra totalmente integrado na mesma, inclusive assumindo presidência de associações científicas hegemônicas, o que significa uma incoerência. Claro que cada caso concreto deve ser analisado em sua especificidade, bem como o processo evolutivo do referido intelectual, entre outras determinações.

Em síntese, a identificação da postura intelectual de um indivíduo da classe intelectual precisa ser pautada por esses três aspectos: autodeclaração, prática discursiva, prática efetiva. No entanto, isso é complementado, como no caso de qualquer discurso, pela análise do contexto social (a sociedade numa determinada época) e cultural (a cultura da época). Esse elemento é importante para inserir a evolução intelectual do indivíduo em questão na totalidade das relações sociais, tanto nas relações sociais concretas quanto no mundo cultural onde emerge e ganha significado. As mutações de um intelectual são explicadas tanto pela sua evolução biográfica, quanto pela sua evolução social, pois as mudanças sociais atingem os indivíduos, podendo mudar sua postura intelectual, seja por pressão, necessidades, etc. A análise apenas da prática efetiva não poderia mostrar isso. Da mesma forma, se dizer “esquerda” nos Estados Unidos tem um significado distinto do que no caso brasileiro ou francês.

Desta forma, identificação da postura intelectual de um indivíduo possui esses cinco aspectos fundamentais (autodeclaração, prática discursiva, prática efetiva, contexto social, contexto cultural) que são separadas e reunidas no momento da análise. De acordo com o método dialético, o “concreto é o resultado de suas múltiplas determinações” (MARX, 1983; HEGEL, 1980) e assim é essa totalidade de elementos e determinações que permitem a reconstituição de qual é a postura intelectual de um determinado pensador. Através desse procedimento é possível identificar qual é a postura intelectual de um determinado integrante da intelectualidade.

Referências

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. 8.ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 1989.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1983.

HEGEL, G. W. F. Introdução à História da Filosofia. 4ª edição, Coimbra: Armênio Amado, 1980.

MANDOSIO, Jean-Marc. A Longevidade de uma Impostura. Michel Foucault. Rio de Janeiro: Achiamé, 2011.

MARX, Karl. Contribuição à Crítica da Economia Política. 2a edição, São Paulo: Martins Fontes, 1983.

VIANA, Nildo. As Esferas Sociais. A Constituição Capitalista da Divisão do Trabalho Intelectual. Rio de Janeiro: Rizoma, 2015b.

VIANA, Nildo. Intelectuais Venais e Axiologia. Revista Axionomia (GPDS/UFG). Vol. 01, num. 01, jan./jun. de 2015a.

VIANA, Nildo. Introdução à Crítica da Ideologia Gramsciana. Marxismo e Autogestão. Ano 02, num. 03, jan./jun. 2015c.



[1] Um intelectual hegemônico numa determinada esfera social pode estar abaixo na hierarquia da classe intelectual, dependendo da função e prestígio de tal esfera.
[2] Sobre isso, consulte suas obras Vigiar e Punir (FOUCAULT, 1983) e Microfísica do Poder (FOUCAULT, 1989).

domingo, 27 de setembro de 2015

Paul Mattick e a Ditadura dos Intelectuais


Texto, em espanhol, de Paul Mattick, abordando a questão dos intelectuais e debatendo com Max Nomad, pesquisador de Makhaisky.


MATTICK, Paul. Dictadura de los Intelectuales? In: Rebeldes y Renegados. La Funcion de los Intelectuales y la Crisis del Movimiento Obrero. Barcelona: Icaria, 1978.

Mais textos de Paul Mattick: Comunismo de conselhos.

sábado, 26 de setembro de 2015

CARTA AOS INTELECTUAIS

CARTA ABERTA AOS INTELECTUAIS

Rudolf  Berg

Prezados intelectuais, eu vos escrevo essa carta para explicar o que nós somos, o que deveríamos e podíamos ser. É uma solicitação e uma exigência aos intelectuais para tomarem uma posição digna diante de uma realidade social que está se encaminhando para uma grave crise social que pode ameaçar até mesmo a existência humana. Por isso a leitura atenta e completa dessa carta se faz necessário, bem como ela em si e seu apelo a todos os intelectuais.

Os intelectuais são geralmente conservadores. Apesar da propaganda (e não passa disso) do suposto papel crítico do intelectual na sociedade moderna, não é isso que se verifica na realidade concreta. E quais são as razões disso? É possível a superação dessa realidade? Qual deveria ser a função do intelectual na nossa sociedade? Como intelectual é preciso dizer que é possível superar o conformismo, o conservadorismo, o progressismo que impera nos meios intelectuais. Essa é uma “carta”, que sai dos formalismos que a intelectualidade acaba se submetendo, de um intelectual para outros intelectuais.

Os intelectuais são, em sua maioria, conservadores, conformistas. No máximo são “progressistas”, ou seja, “reformistas”, uma forma socialmente elegante de ser conservador. Isso é derivado da classe social de pertencimento dos intelectuais: a intelectualidade. A classe intelectual é conservadora por sua posição na divisão social do trabalho e dos interesses derivados daí, que são interesses de classe e, ao mesmo tempo, interesses individuais, pessoais. Os intelectuais possuem um certo “status”, alguns possuem níveis salariais mais elevados que outros setores da sociedade. Os intelectuais (cientistas, artistas, técnicos, professores, etc.), em seus estratos superiores, recebem altos salários dos seus empregadores capitalistas. Para servir ao capital, os intelectuais recebem vantagens para seus estratos superiores e migalhas para seus estratos inferiores. Em troca disso, a classe intelectual exerce a função de criar ideologias e produções intelectuais para reproduzir essa sociedade, naturalizando-a, eternizando-a, legitimando-a. É isso que explica o conservadorismo da maioria dos intelectuais.

Isso, no entanto, não é um fatalismo. Tanto isso é verdade que existem vários intelectuais não conformistas, como este que vos escreve esta carta. Assim, o que são os intelectuais é uma coisa, o que me interessa é o que devem ser. Ao intelectual real, de carne e osso e geralmente conservador, contraponho o intelectual ideal, aquilo que ele deveria e pode ser. Sem dúvida, se o intelectual abandona sua posição conservadora (de qualquer tipo, incluindo a “progressista”), sofrerá as consequências. Essas consequências, no entanto, são menores para aqueles que são estabilizados profissionalmente e são mais necessárias para os que não possuem tal estabilidade. E o aumento dos intelectuais que rompem com o conservadorismo, permite diminuir tais consequências negativas. Mas também existem as consequências positivas, das quais trataremos no final dessa carta.

O mundo hoje caminha para uma crise sem precedentes. O capitalismo, como modo de produção, está se esgotando. Além dele manter a exploração e aumentar o seu grau, aumentar o desemprego, a miséria, a fome, que hoje atinge mais de um bilhão de pessoas, ele traz outros motivos para buscarmos superá-lo, tal como a ameaça de destruição da humanidade, que pode sair dos filmes de ficção científica e se tornar realidade. A destruição ambiental em alta escala é um dos elementos que podem gerar o fim da humanidade. Os seres humanos, seguindo a dinâmica do capitalismo, agem como o bicho da goiaba. Vão se alimentando do planeta até exauri-lo e destruir sua própria fonte de vida. As crises capitalistas e o esgotamento do modo de produção trazem o retorno do barbarismo, doenças já superadas retornam, a fome atinge um de cada sete ser humano, a destruição ambiental se faz sentir na pele dos indivíduos com o esquentamento e mudanças climáticas, a crise moral e o hedonismo fazem muitos seres humanos regredir para um nível de animalidade (onde o prazer se torna a meta e o critério absoluto). Alguns países – Portugal, Espanha, Grécia – apenas manifestam crises sintomáticas que escondem suas raízes mais profundas e que em breve tende a se espalhar por diversos outros países, incluindo os todo-poderosos países imperialistas. Se o barbarismo já se esboça, nesses momentos eles se multiplicam, se aprofundam, se tornam hegemônicos.

A responsabilidade dos intelectuais nesse momento é enorme. São eles que podem identificar os sintomas, fazer o diagnóstico e apresentar o prognóstico, desde que abandonem seus interesses mesquinhos e se preocupem com o futuro da humanidade e dos seus próprios filhos e netos. Hoje se impõe a necessidade do ato de romper com o conservadorismo e se negar a realizar a função que o capitalismo impõe e assumindo a responsabilidade diante da humanidade e do saber, apontando para uma transformação profunda e total da sociedade. Isso, além de ser mais belo, honesto, honrado, é também prazeroso, pois pode nos reconciliar com a essência humana, com aquilo que Marx denominou práxis, o trabalho humano livre, teleológico e consciente que nos satisfaz quando olhamos para os seus resultados e com relações sociais re-humanizadas, sinceras, honestas, solidárias, fundadas na liberdade e igualdade sociais. Cabe ao intelectual dizer a verdade, não compactuar com as mentiras e injustiças em todos os lugares (a farsa eleitoral, as mentiras governamentais, a falsidade do progressismo que apenas disputa o poder, a exploração dos trabalhadores e mais milhares de exemplos que poderiam ser citados). Inclusive deveria repensar suas práticas, profissão, etc. Ao compactuar com as injustiças de professores contra alunos, de intelectuais contra outros intelectuais, ao se silenciar, ao se omitir, ao cometer injustiças, produzir ideologias e reproduzir mentiras, o intelectual mostra não apenas covardia, desumanidade, mas também mesquinharia. O intelectual que compactua com as ilusões, mentiras, e fica a serviço dos poderosos, governantes, capitalistas, se torna um ser desprezível e que não se realiza como ser humano. O produto do seu trabalho ao invés de satisfação traz vergonha e sentimento de culpa. Se ele abandona a função de serviçal dos capitalistas, burocratas e governantes, ele sofre a consequência negativas de talvez ter menos dinheiro na conta no final do mês, mas pode chegar perto de se realizar como ser humano e satisfação com os resultados do seu trabalho, sendo essa a consequência positiva.


Além de serem indivíduos pertencentes a uma determinada classe social, a intelectualidade, os intelectuais, são seres humanos e isso precede sua posição de classe e social. Ao invés de se entupir de remédios para sobreviver e dormir, por se vender e subordinar aos capitalistas e burocratas, eles podem, caso decidam e assim esbocem sua liberdade, poderão ter o sono dos justos. Então precisamos exigir dos intelectuais o mínimo que se espera deles: compromisso com a verdade, com os explorados e injustiçados, com a transformação radical do mundo. Ao invés de intelectuais aristotélicos reprodutores de ideologias legitimadoras da exploração e miséria humana, intelectuais sartreanos que superam a imanência do pertencimento de classe e realizam a sua transcendência, ficando do lado do proletariado e assim ajudando a construir um novo mundo. Essa é a exigência mais urgente para os intelectuais em nossa época.

Revista Marxismo e Autogestão. Ano 02, número 03, 2015.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Intelectuais, elitismo, tecnicismo e gosto musical


O vídeo abaixo aborda a questão do elitismo por detrás do gosto pelas músicas complexas.

Para ouvir o vídeo basta ir até o rodapé desta página e no player da Rádio Germinal clicar em pausa.

Ouça Rádio Germinal: http://radiogerminal.blogspot.com.br/

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Rádio Germinal


Rádio Germinal
Onde a Música não é mercadoria,
É crítica, qualidade e utopia.

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sábado, 2 de novembro de 2013

Chamada de artigos



Chamada de artigos para o dossiê temático:

GERAÇÕES: juventude e velhice na sociedade moderna
Org.: Isolda Belo (FUNDAJ/PE), Luís Antonio Groppo (UNISAL/SP), Nildo Viana (UFG/GO) e Revalino Antonio de Freitas (UFG/GO)

A revista SOCIEDADE E CULTURA torna pública a chamada de artigos para o dossiê temático “Gerações: juventude e velhice na sociedade moderna”, organizado pelos profs. Isolda Belo (FUNDAJ/PE), Luís Antonio Groppo (UNISAL/SP), Nildo Viana (UFG/GO), Revalino Antonio de Freitas (UFG/GO). A publicação é prevista para o v. 17, n. 1, 1º semestre de 2014.
Serão aceitos artigos escritos em português, inglês ou espanhol, que estejam em conformidade com as normas da revista (disponíveis em www.revistas.ufg.br/index.php/fchf), e que digam respeito ao tema proposto pelo/a/s organizador/a/s, assim formulado:

As gerações se encontram entre os temas em evidência na contemporaneidade e o seu conceito comporta múltiplas significações. De acordo com o “olhar” recortado de cada campo de conhecimento ou instituição, elas adquirem contornos que lhes dão conformidade e permitem que sejam identificadas, reconfiguradas, normatizadas, tendo como centralidade temporal os ciclos de vida. Na sociologia, o esforço teórico para apreendê-las como um objeto de investigação tem sido considerável, com destaque para as reflexões teóricas de Karl Mannheim, que de certo modo apresenta à sociologia uma conceituação mais próxima ao conhecimento desse campo científico. Não obstante, do ponto de vista sociológico, o debate teórico e conceitual se encontra em aberto, exigindo atenção e rigor cada vez maior, na medida em que a complexidade da sociedade contemporânea insere novos problemas, tornando mais fluidos os recortes temporais dos ciclos de vida. Esse dossiê se propõe a continuar o salutar debate em curso, a partir de duas fases distintas do processo geracional: a juventude e a velhice. O tema da juventude vem ganhando cada vez mais espaço nas discussões sociológicas. Ao lado da produção mais antiga, novas abordagens e pesquisas passaram a ser realizar, principalmente a partir dos anos 1960 e ganhando novo impulso a partir do início do novo século, o que está relacionado com a mobilização juvenil e estudantil gestada nesse período. As culturas e grupos juvenis, suas lutas e manifestações sociais, suas condições de vida e envolvimento com outros setores da sociedade, tais como escola, meios de comunicação, políticas públicas, são alguns dos temas específicos mais desenvolvidos nessa área. A velhice é a mais recente das gerações a se inserir no campo de investigação sociológica. Sua irrupção resulta da longevidade que tem caracterizado a sociedade contemporânea nas últimas décadas, trazendo à tona a existência social de uma geração até então à margem, e que tem ocupado um espaço crescente na estrutura etária, trazendo novas necessidades e exigindo cuidados próprios de um ciclo de vida que, em si, evoca a preservação dos valores, a memória e a tradição de uma dada sociedade. 

As contribuições devem ser enviadas diretamente para os organizadores, através dos e-mails: nildoviana@ymail.com e freitas@cienciasociais.ufg.br (ou através do portal da revista).
Prazo para o envio: 20 de novembro de 2013.
Além dos artigos para o dossiê, SOCIEDADE E CULTURA também recebe, em fluxo contínuo, outras contribuições: artigos sobre temas diversos, notas de pesquisa, resenhas de livros relevantes nas ciências sociais. Tais textos devem ser enviados aos editores da revista, conforme os meios indicados nas normas para submissão.

Convocatoria de artículos para dossier temático sobre

GENERACIONES: juventud y vejez  en la sociedad moderna
Org.: Isolda Belo (FUNDAJ/PE), Luiz Antonio Groppo (Unisal/SP), Nildo Silva Viana (UFG/GO) e Revalino Antonio de Freitas (UG/GO)

La revista SOCIEDADE E CULTURA torna pública la convocatoria de artículos para el dossier temático “Generaciones: juventud y vejez en la sociedad moderna”, organizado por los profes. Isolda Belo (FUNDAJ/PE), Luiz Antonio Groppo (Unisal/SP), Nildo Viana (UFG/GO) Revalino Antonio de Freitas (UFG/GO). La publicación está prevista para el volumen  v. 17, n. 1, 1º semestre de 2014.
Serán aceptados artículos escritos en portugués, inglés o español, que estén en conformidad con las normas de la revista (consultar en: www.revistas.ufg.br/index.php/fchf), y que se circunscriban al tema propuesto por los organizadores, así formulado:
Las generaciones se encuentran entre los temas en evidencia en la contemporaneidad y su concepto comporta múltiples significados. Bajo un “mirar” recortado en cada campo del conocimiento o institución, ellas adquieren contornos que les dan conformidad y permiten que sean identificadas, reconfiguradas, normatizadas, teniendo como centralidad temporal los ciclos de la vida. En la sociología, el esfuerzo teórico para aprehenderlas en cuanto objeto de investigación, ha sido considerable, con énfasis para las reflexiones teóricas de Karl Mannheim, que de cierto modo presenta a la sociología una conceptualización más próxima al conocimiento de esa campo científico. Sin embargo, el debate teórico y conceptual se encuentra abierto, exigiendo atención y rigor cada vez mayor, en la medida en la complejidad de la sociedad contemporánea insiere nuevos problemas, tornando más fluidos los recortes temporales de los ciclos de la vida. Este dossier, se propone continuar el saludable debate en curso, a partir de dos fases distintas del proceso generacional: la juventud y la vejez. El tema de la juventud viene ganando cada vez más espacio en las discusiones sociológicas. Al lado de la producción más antigua, nuevos abordajes e investigaciones pasaron a ser realizadas, principalmente a partir de los años 1960 para luego ganar impulso a partir de inicio del nuevo siglo, y que está relacionado con la movilización juvenil gestada en ese periodo. Las culturas y grupos juveniles, sus luchas y manifestaciones sociales, sus condiciones de vida y envolvimiento con otros sectores de la sociedad, tales como la escuela, medios de comunicación políticas públicas, son algunos de los temas específicos más desarrollados en esa área. La vejez es la más reciente de las generaciones a incorporarse en el campo de la investigación sociológica. Su irrupción resulta de la longevidad que ha caracterizado a la sociedad contemporánea en las últimas décadas, tornando visible la existencia de una generación hasta entonces al margen, y que ha ocupado un espacio creciente en la estructura etaria trayendo nuevas necesidades y exigiendo cuidados propios de un ciclo de vida que, en sí, evoca la preservación de los valores, la memoria y la tradición de una dada sociedad.

Las contribuciones deben ser enviadas directamente para los organizadores a través de los e-mails: nildoviana@ymail.com y freitas@cienciassociais.ufg.br. (o a través del sitio http://www.revistas.ufg.br/index.php/fchf)
Plazo para envío: 20 de noviembre de 2013.
Además de los artículos para el dossier, SOCIEDADE E CULTURA también recibe, en flujo continuo, otras contribuciones: artículos sobre diversos temas, notas de investigación, reseñas de libros relevantes en las ciencias sociales. Tales textos deben ser enviados a los editores de la revista, conforme los medios indicados en las normas de edición.




Call for papers for thematic dossier:
GENERATIONS: youth and old age in modern society
Org.: Isolda Belo (FUNDAJ/PE), Luiz Antonio Groppo (Unisal/SP), Nildo Silva Viana (UFG/GO) and Revalino Antonio de Freitas (UFG/GO)

SOCIEDADE E CULTURA  (CULTURE AND SOCIETY) publicly announces a call for papers for the thematic dossier " Generations: youth and old age in modern society”, organized by the scholars Isolda Belo (FUNDAJ/PE), Luiz Antonio Groppo (Unisal/SP), Nildo Silva Viana (UFG/GO) and Revalino Antonio de Freitas (UFG/GO)
The v. 17, n. 1, is expected to be released by early 2014.
Articles written in Portuguese, English or Spanish are accepted in conformity with the journal submission guidelines (available in www.revistas.ufg.br/index.php/fchf), in accordance to the theme proposed by the organizers, as follows:
The generations are among the topics highlighted in the contemporaneity and its concept involves multiple meanings. According to the "look" cut off from each field of knowledge or institution, they acquire contours that give them conformity and allow them to be identified, reconfigured, normalized, and having the life cycles as its temporal centrality. In sociology, the theoretical effort to understand it as an object of research has been considerable, with emphasis on the theoretical reflections of Karl Mannheim, which somehow presents to sociology a conceptualization closer to this scientific field. However, from the sociological standpoint this conceptual and theoretical discussion remains open, requiring attention and increasing accuracy, to the extent that the complexity of contemporary society brings new problems, making more fluid the temporal approaches of life cycles. This dossier aims to continue this salutary debate, from two different stages of the generational process: youth and old age. The Youth is gaining more and more space in sociological discussions. Along with the oldest production, new approaches and researches began to be carried out, mainly from the 1960s and gaining new momentum from the beginning of the new century, which is related to youth and student mobilization gestated during this period. Cultures and youth groups, their struggles and social manifestations, their living conditions and involvement with other sectors of society, such as school, media, public policy, are some of the more specific themes developed in this area. Old age is the most recent generation category to enter the field of sociological research. Its irruption is the result of longevity that has characterized contemporary society in recent decades, bringing to the fore the social existence of a generation that had been left, and it has occupied an increasing space in the age structure, bringing new needs and requiring proper care of a lifecycle which itself evokes the preservation of values, memory and tradition of a given society.

Contributions should be sent directly to the organizers via e-mail: nildoviana@ymail.com and freitas@cienciassociais.ufg.br (or at journal’s website http://www.revistas.ufg.br/index.php/fchf)
Deadline for submission: November 20th, 2013.
SOCIEDADE E CULTURA  (CULTURE AND SOCIETY) is an open access, peer-reviewed journal published by Faculdade de Ciências Sociais of the Universidade Federal de Goiás, Brazil.  S&C is published in both print and online versions.
In addition of papers for the dossier, the journal is continuously receiving other contributions: papers on various subjects, research notes, and reviews on relevant books in social sciences.  Papers must be sent to the journal editors according to submission guidelines (see at: www.revistas.ufg.br/index.php/fchf).

sábado, 7 de setembro de 2013

GT sobre conflitos e movimentos Sociais



CONFLITOS E MOVIMENTOS SOCIAIS NA SOCIEDADE MODERNA,
(GT durante III Simpósio Internacional de Ciências Sociais/FCS-UFG).
gt conflitos e ms
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